A farsa da boa preguiça

Escrita em 1960, pelo romancista e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna (1927), a peça é permeada de valores e personagens da cultura popular, tornando-se uma referência exemplar do folclore nordestino, com seus tipos sempre um tanto exagerados e altamente representativos. O intuito do diretor com essa montagem era reverenciar o autor e sua obra, tendo em vista a celebração do artista do povo brasileiro.

Por meio do fabulário nordestino, a história narra as peripécias do poeta de cordel pobre e preguiçoso que só pensa em dormir. São personagens que se assemelham a xilogravuras vivas, em uma encenação que ganha contornos de crítica social sem perder o humor, a agilidade, o colorido e as referências ao sagrado e ao profano (tão presentes no imaginário regional). Para tanto, cenografia e figurinos falam ao mesmo tempo de Nordeste e de festejos e manifestações populares nordestinos.

O cenário empresta ambientação de feira, com um teatrinho de bonecos no fundo do palco – os atores fizeram oficinas de mamulengos para usar essa linguagem no espetáculo. Os painéis coloridos contam com minuciosas iluminogravuras de Suassuna, e xilogravuras de Jota Borges (considerado pelo autor o maior artista popular de todos os tempos). Três matrizes de xilogravuras foram criadas especialmente para ilustrar os atos do espetáculo.

O figurino de Rodrigo Cohen segue a proposta da riqueza de cores, utilizando a impressão digital em tecido e retalhos estampados tingidos e inspirados nas festas populares da região, carregando nos detalhes um leve tom crítico. Todas as vestimentas foram tratadas com tinta de tecido em aguadas para dar o aspecto envelhecido. A iluminação ressalta a vida desse universo de cores, bandeiras, fitas e mamulengos, além de uma trilha sonora que mistura a música nordestina de raiz com música medieval e clássica.

O resultado é um espetáculo que integra com fluidez a cultura regional à linguagem cênica, sem perder de vista a dinâmica colorida da tradição popular e as atrozes contradições da sociedade brasileira.
 
Ficha Técnica
NEY MADEIRA (CENÓGRAFO / SET DESIGNER), RODRIGO COHEN (FIGURINISTA / COSTUME DESIGNER). A FARSA DA BOA PREGUIÇA / FARSE OF THE GOOD LAZINESS, SESC GINÁSTICO, RIO DE JANEIRO, 2009. ARIANO SUASSUNA (AUTOR / DRAMATIST), JOÃO DAS NEVES (DIRETOR / DIRECTOR), PAULO CESAR MEDEIROS (ILUMINADOR / LIGHTING DESIGNER), DUDA MAIA (DIRETOR MUSICAL / SOUND DIRECTOR), ZÉLIA SUASSUNA (ILUSTRADORA / ILLUSTRATOR), ALVARO MUTAY, JORGE MARCILIO (FOTÓGRAFOS / PHOTOGRAPHERS).